Diário de uma Paixão

Sexta-feira, Dezembro 04, 2009

Crédito aprovado

A vida é demasiado curta para não ser celebrada,mas eu não consigo andar sempre em festa.Para mim,não passa de cínico quem assim andar.
Posso ser fria e calculista,mas se os cálculos não forem feitos que será dos resultados?As contas são feitas por alguma razão,medir os danos talvez.Cada vez passa mais depressa,e eu procuro desesperadamente pela frescura da adolescência na minha mentalidade precocemente adulta.Há dias em que acordo criança,outros em que sou idosa,apesar de acordar sempre.
Até hoje não me desiludi,tarde ou cedo levantei-me.Os lençóis são para os fracos e se algum dia o tiver de ser é porque deixei de sentir as pernas.A vida é demasiado curta para viver na cama,e como eu gosto de dormir...
Não acredito em paraísos ou infernos,acredito nos sonhos.Acredito que aquilo que sonho se vai realizar no momento em que perder as minhas 21 gramas,se assim não fosse,temia todos os dias pelo meu destino e suava todos os dias por temer as chamas do inferno.


A vida é um empréstimo ao banco que dura para sempre,até a deixarmos de herança,ou ficarmos em divida para com o mundo e nós mesmos.

Terça-feira, Novembro 10, 2009

Exame

Já não tenho tempo para escrever,
Tenho saudades de o ter,
O tempo para ser,a saudade de ter o que não ser.
Para já o tempo voa,e a sabedoria por arrasto vai.
Eu tenho de ser o que não sou,
Aquilo que outrora entrou,hoje sai,
E o que me dei já não dou.

Quase 4 meses que se apagaram,
Nada de memorável ficou para trás,
O meu desejo de ser gente,
Gente não serei certamente,
Um ser livre numa metáfora de Alcatraz,
Num Novembro ainda a celebrar.

Este ano os anos voam e eu não recordo o que devia,
Às vezes divago se sabia,
Algum dia por onde andei.
Já não me lembro se estudei para o teste,
Dá-me a sensação que chumbei.

Quinta-feira, Julho 09, 2009

Um baloiço invisível

O que dizer acerca daquilo que não se vê?
Deus não se vê,os sentimentos não se vêm,a vida não se vê.Eu cá acho que era cor-de-rosa por ser tão irónica,se se visse,algum dia.
E o som?
Qual é o som da auto-estima?Uma guitarra ou um piano perigoso e agudo,na minha opinião.Tão depressa se está em corda acima ou tecla abaixo.E a porcelana não parte.
Conheço quem a procure numa peça de roupa ou numa tatuagem,quem a procure no fumo e no pó,no liquido que desaparece do fundo da garrafa,no volante de um carro,numa secretária suada,mas a maioria procura realmente dentro de si.Certo ou errado,quem sou eu para julgamentos...
A auto-estima é como o brinquedo caro dos adultos,aquele que nunca tivemos em criança,aquele que se esconde nas profundezas da loja e que procuramos todos os natais.
Enquanto não a temos,substituímos com doces até ficarmos diabéticos.O adulto funciona assim,pouco sóbrio.
Procuramos,procuramos,procuramos,talvez numa luta infinita em busca de algo que não se vê...Engraçado não?
Eu quando penso em auto-estima penso em quê?No mesmo que toda a gente,com a diferença de já a ter visto.
A idade é um baloiço invisível que nos leva para lá e para cá sem abrandar.


Cada vez me sinto mais longe da criança que existia em mim.

Segunda-feira, Junho 22, 2009

Nostalgia

Não são só as pessoas que morrem,os sentimentos também.
Hoje cheguei a casa do trabalho,fiz as coisas rotineiras normais e fui correr.Uma volta enorme até à Alameda,descendo pela Almirante Reis e voltas sem fim até casa.A pele pingava o chão quando cheguei.Por fim quando decidi descansar,liguei a tv e estava a dar um daqueles filmes de acção com um detective branco e um preto e uma gaja sexy (o típico).O mais engraçado é que vi o filme até ao fim e gostei,não que seja o filme da minha vida,longe disso,mas era engraçado,tinha planos interessantes,bons actores,uma grande banda sonora (para o costume) e pensei...Mas por que raio nunca tinha visto este filme?Tem ar de ser comercial,pelo menos havia visto nas noticias a sua existência mas nem disso me recordava.
No final,a imagem da cidade de Miami e um ecran negro com o nome:
Miami Vice.
E pensar que fui ver este filme ao cinema...A vida é ironica.
As amizades tambem morrem.

Terça-feira, Junho 09, 2009

Um mar de sarcasmo

Adormeço num manto de flocos de chocolate aromatizados de baunilha e côco para acordar no meio de um xarope enjoativo de caramelo,pegajosa a tudo quero deixar e tudo me parece visto de fora.Até as minhas mãos me parecem escuras e estranhas e mexem-se à velocidade da luz enquanto raciocino.
Olho as ondas,não,primeiro o céu depois as ondas.O céu é a simplicidade para a qual nunca viverei e as ondas o meu habitat natural.Sou um bicho como outro qualquer numa selva bem perigosa e traiçoeira.O mundo tornou-se numa selva de areias movediças,num pântano sombrio de fantasmas.Eu gosto de me gabar à mesma de que não tenho fantasmas,não sou religiosa!Ahah a comédia que é mentir e confundir...Como eu ia dizendo,mergulho no desconhecido que é o mar e deixo de ver,deixo de ouvir,não sinto nada.Voar é igual concerteza,já sonhei que sim.Por isso é que os pássaros são felizes e vivem tão pouco.O pouco e o muito começa a ser uma incógnita para mim,eu que sempre fui tão equilibrada!Atenção que não me afogo,está tudo sob controlo.Eu sou o controlo em mulher,não grito não choro não fujo não morro não vou abaixo não me liberto não...Não,pronto.
O relógio faz tic-tac em câmera lenta e eu fujo dele.A vida é enorme!Não deveria sentir isso,quanto maior me parece mais curta ela é e vai correndo...E vai parando e vai correndo e não olha para trás,mas eu sim,e vejo-a passar impune,de fora.
Ganha-se imunidade à sanidade,torno-me numa polineuropatia eu mesma e procuro-me dentro de mim como a uma cura.E de repente o meu nome passou a ser rara,autosómica dominante e neurológica.Eu que sempre odiei rótulos han?

Mergulhei num mar de sarcasmos e aqui ando eu a flutuar...

Quinta-feira, Maio 14, 2009

+oo ?

Quero mais.
Estou cansada de deitar abaixo todas as minhas percepções.
Quero sempre que o amanhã seja melhor mas é igual.Todos os dias são iguais.
Quero não estar sozinha.
Não foi isto que planeei.
Desabafar tem sempre um aresta de razão e um vértice de mágoa.
Quero mais.

Quarta-feira, Abril 22, 2009

Anatomia de Cátia Cláudia

Olhei para a miúda dos cabelos ruivos e fez-me lembrar alguém.Tinha um sorriso brilhante como os cabelos e uns olhos excessivamente rasgados como um raio de Sol.Ela por inteiro era um bocadinho de luz.Observei atentamente todos os seus traços e todos os seus gestos,activando o meu motor de busca para encontra-la na minha cabeça em alguma altura da minha vida,na escola,nalgum trabalho,sei lá,qualquer lado.Por muito mais características que juntasse não conseguia junta-la ao meu puzzle mental de todos os episódios por que já passei,meti a minha vida em série,assim como uma "Anatomia de Cátia Cláudia" ou algo do género.Deus...Odeio o meu nome,mas continuando.
Andava na faculdade de jornalismo e gostava daquele tipo de musicas que ninguem mais gosta mas no fundo toda a gente acha bonito de se ouvir,e complicava tudo o que lhe aparecia pela frente,talvez complicar fosse a sua defesa mais secreta.Fez dela a base do seu feitio e das suas danças matinais com o espelho que lhe parecia cada vez mais agressivo.O seu namorado era o rapazinho mais complicado e sentimental que podia existir,e ela era tão inteligente...
Após noites a fio contemplando aquela imagem de ternura em rapariga rebelde,percebi que não valia a pena o esforço do motor de busca.
Quando era pequena sempre me perguntei por que não teria um amigo imaginário,quando a minha imaginação era tudo o que restava...Afinal,quanto mais tempo passamos sozinhos mais damos largas à nossa imaginação,frutos,costumam chamar-lhe assim.Nunca vi esse amigo que todas as crianças problemáticas viam,então resolvi criar o Gabriel.Era o meu "anjo da guarda",com quem eu falava todas as noites de insónia no meio dos gritos,agarrada à minha gata debaixo dos cobertores.O Gabriel nunca apareceu na verdade,cheguei a fingir que me dava respostas,mas...Tretas,nunca deu.Nem o Gabriel,nem o amigo imaginário,nem a gata,nem os peluches nem a humidade negra do tecto para onde olhei tantos anos.Aprendi a dar as minhas próprias respostas,a aceita-las,digeri-las e continuar a cria-las até me tornar adulta.Hoje sei que nem sempre foram as mais correctas,mas foram melhores que nada.
Eu sempre quis ser ruiva,ruiva natural,daquele laranja avermelhado que só se vê em caixas de tinta para o cabelo.Sempre quis estudar,de preferência jornalismo.Sempre quis ter alguem sentimental que chorasse comigo,e sempre soube que isso era exactamente o contrário do que precisava.
Engraçado,as tintas não pegam bem no meu cabelo a não ser a cor preta.Essa fixa que é uma maravilha,talvez se atraia ao meu estado de espirito ou...Não sei.
Deixei de falar com o Gabriel na noite em que decidi fugir de casa pela primeira vez.Deixei o sonho da faculdade quando consegui sair de casa.Continuo a tentar pintar o cabelo de vez em quando...E desisti de querer ter alguem depressivo quando encontrei o amor da minha vida.
Sempre disse que não tinha medo de morrer,e realmente as coisas mudam muito.